quinta-feira, 28 de abril de 2016

E nada mudou



Foto: Douglas Monteiro/ Vila Nova F. C.
E nada mudou. As pessoas mudaram, as atitudes mudaram, as referências mudaram, mas os interesses continuam os mesmos. Quem pensou que novos tempos haviam chegado no Onésio Brasileiro Alvarenga, está enganado. Ou melhor, foi enganado. Foi iludido por um discurso de quem sabia da carência da torcida e do que a torcida queria escutar. Funcionou, deu certo. Foram abraçados e ovacionados quando assumiram em definitivo o comando da agremiação. Com um discurso de torcedor, trazendo para o mandato nomes queridos de toda a torcida, os novos chefes conquistaram uma aproximação há muito não vista pelos lados do Universitário. E olha que esse clube sempre foi carregado pela torcida, desde sempre e para sempre será, arrisco a dizer.

Mas como não se iludir? Como não confiar em pessoas que bateram de frente veementemente com aquelas que sangraram o time por uma década seguida? Como não se deslumbrar com um discurso de quem se dizia da arquibancada? De quem sabia, ou dizia saber, de todo o sofrimento que a imensa massa passou durante anos? A confiança era inevitável. A vulnerabilidade, inerente a todo ser apaixonado, se agravou ainda mais após o desastroso ano de 2014. Quem viu seu coração destroçado por duas situações jamais imagináveis em vida, clamava por um salvador.

Oportunismo e carência. Esses foram os principais ingredientes para que uma pseudo-revolução acontecesse no Onésio. Pseudo porque, com o passar do tempo, o que se pensava ser uma revolução, a devolução do Colorado para as mãos do povo, está se revelando uma continuação das mesmas mazelas vividas na última década. As máscaras, pouco a pouco, estão começando a cair. E quem vai pagar o pato (e a conta), são os iludidos, os verdadeiros detentores deste clube, que, de tão apaixonados e esperançosos, se deixaram levar por palavras bonitas.

Mas, se nada mudou no alto escalão, nada mudou no coração de cada apaixonado. O maior motivo que faz de um vilanovense, um vilanovense é o simples fato do existir. É somente a certeza de que terá, para sempre, algo para amar, para se apegar, para venerar. Ser vilanovense não é se gabar por ter muitos títulos ou por ser um dos maiores clubes do centro-oeste. Ser vilanovense não é, tampouco, se inferiorizar a nada e nem ninguém. Ser vilanovense é se orgulhar da história desse time. Ser vilanovense é bater no peito e exibir o manto, independente do acontecido. Ser vilanovense é transbordar amor. É cultivar devoção. Ser vilanovense é simplesmente ser, não tem muita explicação. A paixão não é passível de elucidações, muito menos de lógica. Apenas se sente.

E não pense você que tudo são flores. Assim como em qualquer relação, há altos e baixos nesse eterno casamento entre torcida e time. Há um velho ditado que diz que o amor e o ódio andam juntos. Mas é justamente nesses momentos de ódio que o amor se fortalece, que cada torcedor invoca em si mesmo o verdadeiro motivo de ter escolhido o Colorado para amar. São nos baixos momentos que os sentimentos de amor e pertencimento mais afloram, que cada torcedor percebe que o que o faz estar ali sempre não é o campeonato, não são as vitórias, mas o simples fato daquele clube existir. Ser vilanovense é olhar para trás e se orgulhar de seu passado, viver o presente e ser parte de sua história e vislumbrar o futuro como algo sempre melhor e mais apaixonado.


Tantas vezes iludidos com a promessa de tempos melhores, tantas promessas não cumpridas, tantas decepções acumuladas... Não com o time, senão com as pessoas. Arrependimento? Talvez. Mas nenhum esforço é em vão na tentativa de manter vivo aquilo que se ama, o Vila Nova. Se precisar de mil mais ilusões, mais mil vezes seremos iludidos. Vila Nova é amor e o amor, meus amigos, ele cega.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

A recompensa do Atlético e de Simeone



                    Na imagem, Simeone orientando o Atlético (Imagem: Marca)


Na quarta-feira, 13, o Vicente Calderón viveu mais uma noite inesquecível em sua rica história. O estádio que faz 50 anos em 2016, que já recebeu jogos de Copa do Mundo, viu o seu filho querido, o Atlético de Madrid, eliminar o Barcelona de Messi, Suárez, Neymar, Iniesta e companhia. 

Existem duas formas de se ver o jogo: a primeira é o resultado. 2 a 0. Dois gols de Griezmann e o time Colchonero na final com uma aula na parte tática, arbitragem ruim que prejudicou os dois lados, etc. A outra forma é entender porque o Atlético e seu técnico mereciam a classificação. 

Durante o jogo, o estádio não balançava, pulsava. O regente não estava em campo. Ele estava no banco de reservas. Diego Simeone, técnico do Atlético de Madrid sabe como poucos a importância de se doar por uma camisa, um time, uma torcida. Como jogador ele não foi brilhante, mas tinha uma dedicação, uma raça que poucos possuíam. Dessa forma ele foi recompensado pelo seu esforço, chegou à Seleção Argentina e até fez gol em final de Copa América.

Ele cobra muito de seus comandados. Chegou ao ponto de divulgar o peso de todos os jogadores para o grupo a cada vez que há um exame médico no clube. Com ele não há segredos dentro do grupo. Ou você aceita o seu estilo ou procura outro clube. No time Colchonero ele tem carta branca. Manda e desmanda. Mesmo assim não aparenta ser soberbo por ter esse poder.

Aos poucos ele resgatou um time que estava abandonado. um time que não ganhava um espanhol desde a temporada de 1995/1996. Desde aquele ano até a chegada de Simeone em 2011, o único título havia sido uma Europa League que muitos classificaram como zebra. Somente a torcida acreditava no Atlético.

Simeone descobriu no esforço quase que exaustivo que é possível através da dedicação impedir que o talento vença de forma natural. Ocupar os espaços e sufocar o adversário com uma marcação implacável dava ao mais fraco uma chance. E isso era tudo que ele precisava. Em 2013/2014 o Atlético saiu da fila no espanhol e depois teve a grande oportunidade. Ter a Europa nas mãos.

E ele teve. O Atlético foi campeão da Champions por 93 minutos. Mas a cabeça de Sérgio Ramos e o Real Madrid negaram a glória máxima ao Atleti. Na prorrogação veio o castigo e o 4 a 1 não refletiu o que foi a final em Lisboa. A devastação era quase total. Torcedores e jogadores aos prantos. O sonho destruído. Mas Simeone não é do tipo que desiste.

Na temporada seguinte o argentino recolheu os cacos, aprendeu com o erros e se ergueu novamente. Erguer novamente. Algo que o torcedor do Atlético de Madrid já está acostumado. Não é fácil ter um clube do tamanho do Real Madrid na mesma cidade, um Barcelona no mesmo país e ainda torcer para o Rojiblanco. 

A noite do dia 13 de maio ficará marcada como o dia em que o técnico Colchonero foi recompensado com uma segunda chance. Uma nova chance de se fazer história com um time humilde, mas que sabe da sua grandeza e que pensa além. Eu não duvido de Simeone e seus comandados. E se Real Madrid, Bayern e Manchester City duvidarem, o Vicente Calderón vai receber uma peça nova na galeria de troféus.