| Foto: Douglas Monteiro |
Era 3 de dezembro. O Vila Nova se despedia do Antigo OBA com um jogo beneficente entre ex-ídolos do clube. José estava embebido por nostalgia e melancolia sem iguais. Além de todo o clima de despedida do estádio, ele se viu numa magia e satisfação extraordinárias por ver os ídolos de anos novamente em campo, vestindo a camisa do Tigre e alegrando os mais de 6 mil colorados presentes.
Em certa altura do jogo, seus olhos emaranharam-se e José parecia ter ido para outra dimensão. E fora. Voltou para o ano de 1966, ano em que entrou no OBA pela primeira vez. A primeira visão dos muros, a primeira impressão sobre o campo e o primeiro passo na arquibancada. Ah, aquelas arquibancadas... Ah, se aquelas arquibancadas falassem...
José se demorou um pouco em suas lembranças de arquibancada. Quis reviver cada momento que passou naquele cimento batido, desde os mais marcantes, como os títulos e aniversários, até os mais corriqueiros, como as conversas jogadas fora debaixo dos pés de manga. José demorara nas arquibancadas. Demorara porque sabia que a mudança mais drástica no estádio seria lá. No projeto da reforma, estava a ampliação dos lances de cimento e a substituição do alambrado por vidro do tipo blindex.
Após alguns minutos no passado, José foi interrompido em seus pensamentos pelo coro da torcida comemorando um gol do time de Wando, um de seus jogadores preferidos dentro do Vila Nova. Saiu do transe direto para o êxtase de um gol. Viu toda aquela massa vibrando de emoção ao ver o Vila Nova balançando as redes, abraçando os desconhecidos que estavam próximos pelo simples prazer de compartilhar o sentimento vivido naquele momento.
Terminado o primeiro tempo, José se encaminhou a um dos bares do Onésio Brasileiro Alvarenga e pôs-se a conversar com o dono, no qual já era amigo de longa data. O barista estava todo contente pela situação do Tigrão, extravasava alegria ao contar que iam reformar seu bar e que ele poderia atender melhor a torcida em dias de jogo. José foi na onda do amigo, compartilhou de sua alegria, fingindo estar fascinado com as reformas que o estádio passaria.
Se encaminhando novamente à arquibancada para assistir ao segundo tempo, José fora pensar com seus botões. O Onésio tinha lhe dado muitas alegrias durantes anos, fora o cenário de muitos momentos de sua vida, tanto felizes, como tristes, tanto relacionados ao futebol, como em sua vida pessoal, mas percebeu que as mudanças eram necessárias. O futebol tinha se modernizado e o Vila Nova precisava acompanhar o ritmo. Viu que era injusto e egoísta querer que as coisas permanecessem como há 50 anos e então ele sorriu. Sorriu de felicidade pelas conquistas que o clube estava tendo e por se convencer de que o OBA continuaria sendo seu cantinho preferido no mundo, mesmo com uma carcaça nova.
A partida terminou, o time do ídolo Wando havia vencido por 3x2 e José estava inerte na magia que aquele dia lhe propiciara. Saíra de dentro do estádio com uma sensação de gratidão e de dever cumprido. Então se encaminhara para as barraquinhas que ficavam fora do OBA, conversara com amigos próximos, revera aqueles que há muito não via, comemorara o grande momento vivido. Terminara, por fim, o ritual que repetia em todos os jogos do Vila Nova no Onésio Brasileiro Alvarenga: fizera o sinal da cruz em uma prece ao time e fora de alma lavada para casa, vislumbrando como ficaria seu novo cantinho e pedindo para que pudesse disfrutar em vida de todos os momentos que estavam por vir no novo lugar.


